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RAÚL HENAO / POEMAS TRADUCIDOS AL PORTUGUÉS
OS POETAS DE VISITA
Passam
na alborada
viajantes da esperanza.
Caminanham com sua pianola
debaixo
do braco.
Desde a
media noite
reclinam sua cabeca
na rosa
dos ventos.
A suas
costas levantam
uma
lalanja azêda
nas
esquinas.
Qualham
em colheradas
A sopa
entre o caminho.
Um céu
esburacado
apresentam por cartâo
de
visita.
Despedem-se desconhecidos
no
estribo de uma estrela.
Mexico,marzo de 1984.
Traducao: Teresinka Pereira.
A
LÂMPADA
Na
noite me vejo falando sozinho
pelas
fraturadas paredes
da casa
de campo
Perdido
ao fundo da escuridao
sou
como a lâmpada
ardo no
tibio lume de meu amor.
A NUDEZ
A nudez
de teu corpo
éoutra
vestimenta
roupagem do
gozo
és
lâmpada carnal.
Com as
maos da escuridao
desnudo
tua luz
recordaÇao
que te esquece
esquecimento que te recorda
Tua
nudez:
amêndola preciosa.
A noite
desnudando-se do dia
o dia
da noite
fervorosa visao.
O fio
de teu corpo
aplaca
o tempo.
Traduçao: Iacyr Anderson Freita
Juiz de
Fora, 2002.
HOMENAGEM MANDRAGÓRICO A ENRIQUE GÓMEZ CORREA
Entre
os muros cativos
do
reino da quantidade
elegiste a porta negra
Pontifice do sonho
E da
vigilía.
O anjo
da maldiÇao
Confidente do bem
e do
mal
me
aponta o relámpago
em tua
fronte,
náufrago que insistes
em
indagar a hora exacta
ao
fundo do desconhecido
onde
levam os jugos
divinos
da imaginaÇao,
o amor,
a liberdade.
Te
escuto rouxinol
da
treva
entre a
multidao amotinada
pelo
perpétuo atentado
aos
direictos eternos
do coraÇao
que
–erva do sonho-
renace
indomável
ao
passo de vendaval
da
historia.
RETORNO
DE NIETZSCHE
Neim da
queimadura da chama
aplaca
minha sede.
Nem a
queimadura do sol.
Brincar
com fogo! Meu coraÇao
E um
galpao de gasolina.
Un
paiol de fogos de artificio.
A chama
é meu director
de
orquesta.
O
relâmpago me persegue
por
todo o campo.
SarÇa
ardente é tudo
quanto
amo.
Carvoes
acesos, caminho
sobre
brasas,
baile
na fumarola
De um
volcao em erupÇáo.
Ai, meu
pensamento se consome
na
fogueira da beleza
do
mundo.
A
IMAGEM
Todo
dia caminho até meu rostro no expelo.
Até
meus sinais de indentidade no tempo.
Até meu
passaporte a parte alguna.
Somente
imagen é o que é este hóspede incômodo
que se
espreguiÇa
entre meus braÇos
Entre a
infancia e a velhice
Entre a
vida e a morte
no
interminável ir e vir das horas.
Hóspede
que fingue reconhecer-se me a sós
mas que
recusa responder
ao meu
chamado entre a multidao.
Hóspede
para sempre de minhas palabras
no
embate da luz e da treva.
Imagem
de mim mesmo, meu próximo, rostro de ninguém!
TraduÇao:
Floriano Martins.
O
LABIRINTO
Um céu
como vinho oscuro
Goteja
na mesa do viajante
Fantasma do amor
Chamas
para sua portas
Batentes para todos os ventos
Uma
estrela imantada
Reluz
na esquina
De sua
solidâo
Uns
músicos de aguaceiro
O
acompanhan
Na
velada do caminho.
E a um
canto me indago:
Na
cidade de bruma
Que
Ariadna tece
Na
passagem do hóspede
Imperceptible seu coraÇâo.
A VIDA
À LA CARTE
O poeta
invoca o acaso
Novalis.
Ao
resgate da palabra a raiva estanca
Porém
nem a resgatada nem o ravioso
Desaparecem do conta-gotas
Que
dispôe o acaso para seu arbitrio
No
entanto nâo se queixa o calendario
De ser
arrancado dia após dia
Na
vitrina vagamente higiénica
Que
chaman de história
Onde a
farsa segue de perto a tragedia
O
manjar envenenado o molho.
Apenas
um cadáver responde pela verdade
A
opiniâo publica
Que
como a água nâo tem outra dimensâo
Senâo a
do nadador ou do afogado
A la
carte da vida se joga NA MORTE.
O
JARDIM ANÁLOGO
Perfume
adentro se amontoam as sombras do jardim.
Àpassagem do visitante inopinado, uma aranha sobe
pelo
último raio de sol suspenso sobre a malga da
fonte,
onde toda forma ou figura ao rededor encontra
sua
réplica ilógica mas nâo menos complexa ou inusitada
ao
dizer do ouvido e do gosto, do cheiro e do alhar.
Quer se
adentre o visitante entre a adelfa lujuriosa
ou
persiga o canto de um pássaro em asas da chuva
ou do
vento, deverá ter cuidado com a fonte ilusória,
agregando retalhos de papel à tarde, palavras ao
silêncio, antes que o sonho confira realidade ao desejo,
vida à
estatua de mármore.
O REI
BÊBADO
Sob um
cêu de papel jornal nos alrededores da cidade
passeio
levando nas costas a porta de meu cuarto para
trocar
de roupa diante do público presente na cena
do
sonho onde encontro um rei bêbado refestelado
sobre
o xadrez de meu destino antes que consiga
saltar
as palabras ou despir meu coraÇâo
atrás da casca
amarga
do tempo.
O PAIS
DE HONYHHNMS
Viajante do País de Honyhhnms nâo suporto o rostro
humano.
Confesso que o homen das cidades fede
a
vómito. Por todas partes vejo assassinos aos
montes
cortando o pescoÇos das rosas. Os carros
caÇando
pedetres nas esquinas.
Sim, a
madeira da árbore da vida alimenta o caldeirâo
do
inferno moderno. A cidade assassina os desuses.
O sol
apodrece nos esgotos. A multitudâo afoga o mar
sob
seus gritos e maldiÇoes.
E saber
que em cada leito onde se amam os amantes
está o
paraíso! Porém o homem da escuridâo cercou
de
aramado o jardim. Nâo há bosque sem guarda-bosques.
Ao pé
da fonte a usura espia o surrâo do sonho.
In
memoriam E.M.Cioran.
O DUBLÊ
Tem um jogador de cartas sentado
à beira de minha cama
Até que me ocorre abrir a janela
Desaparece com o ar frio da noite
primeiro seu chapéu, parte de seu
abrigo,
a camisa listrada, os sapatos...
Completamente sem camisa opta por ir-se
descendo furiosamente as escada.
Ainda escuto, mais abaixo, a chave
dando voltas
na velha fechadura do prédio
O cão ladra por um instante, um
automóvel
parece frear e a porta se fecha
com um golpe seco
É neste momento que lembro ter visto
o jogador de cartas numa ocasião
anterior
E ainda vestindo meu roupão noturno,
descendo
precipitadamente as escadas
A porta da rua permanece ligeiramente
entreaberta e na frente dela o
automóvel espera
na escuridão
Quando assomo o rosto pela janela
me vejo no banco de trás do taxi
que continua sua desconhecida carreira...
Tradução de Antonio Miranda
Página publicada em agosto 2007
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